Outro dia fui ver O Artista, já sabendo que tinha 87% de chance de eu não entrar no hype, e não entrei. Esse filme é em preto e branco, mudo. O roteiro é comum, o que não necessariamente faz o filme ser ruim, mas também não faz ser lá essas coisas. Tirando uma cena genial e outra cena muito bonita, o resto do filme é todo "ok, próximo".
Ainda assim, tem uma fila de gente molhando as calcinhas por esse filme. Vários e vários e vários comentários sobre "a celebração do passado", "isso é cinema de verdade", "não é um filme para todos". Eu não sou muito de celebrar o passado, e acho meio estranho as pessoas querendo celebrar o passado através da internet ou qualquer outra coisa que não existia nele. Mas entendo a nostalgia, até certo ponto. Às vezes é difícil se acostumar com as coisas, mesmo quando as mudanças são positivas. Às vezes você tem ligação emocional com algo no passado, ou o passado era melhor porque menos merdas tinham acontecido. Isso é compreensível.
O que não consigo entender é por que algumas pessoas se incomodam com mudanças que não afetam em nada a vida delas. Por que algumas pessoas insistem em se acorrentar a certos pontos do passado, e lutarem contra essas mudanças. Por capricho e egoísmo. Tentando usar como desculpa conseqüências terríveis que só existem na cabeça delas. Ignorando pessoas e comportamentos que sempre existiram, mas são oprimidos há alguns séculos.
É deprimente ler um homem encorajando que "continuem a lutar" para que pessoas LGBT+ não possam se casar. Um direito que deveria ser inerente, mas teve que ser conquistado, e mesmo depois disso continua sofrendo ameaças. É revoltante saber que esse homem, junto com muitos outros homens e muitas outras mulheres, em muitos outros países, conseguem vetar leis baseadas no que eles acreditam ou não, no que gostam ou não, mesmo quando essas leis não afetarão em nada a vida deles, mas melhorarão a vida de outras pessoas.
Essas pessoas tentam se agarrar ao passado. Falam sobre a ameaça à família tradicional, aos costumes. Essas pessoas não se contentam em ter liberdade para viver de acordo com o que acreditam: elas querem tirar a liberdade para que outras pessoas, com crenças diferentes e idéias diferentes e amores diferentes, também vivam.
Porque querem. Não há lógica ou ganho por trás disso. Como a criança mimada que fica batendo o pé e chorando porque quer um brinquedo. E, veja bem, eu não tenho problemas com crianças mimadas ou chorando, desde que elas estejam longe de mim. E também não tenho muitos problemas com as pessoas desgostarem de algo, mesmo que esse desgostar não faça sentido, nem com pessoas nostálgicas.
O meu problema começa quando as pessoas querem fazer o desgostar delas ser proibido por lei. Quando resolvem matar ou violentar ou ameaçar outra pessoa, simplesmente por discordar das escolhas que essa pessoa faz.
Eu quase chorei lendo aquela reportagem. Senti tanto nojo, que quase não consegui ficar feliz pela lei ter sido aprovada. É de quebrar o coração ler um senador, um homem gay, dizendo que "nada vai tirar esse momento histórico de nós". Espero que ele esteja certo.
