quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A próxima geração

Outro dia fui ver O Artista, já sabendo que tinha 87% de chance de eu não entrar no hype, e não entrei. Esse filme é em preto e branco, mudo. O roteiro é comum, o que não necessariamente faz o filme ser ruim, mas também não faz ser lá essas coisas. Tirando uma cena genial e outra cena muito bonita, o resto do filme é todo "ok, próximo".

Ainda assim, tem uma fila de gente molhando as calcinhas por esse filme. Vários e vários e vários comentários sobre "a celebração do passado", "isso é cinema de verdade", "não é um filme para todos". Eu não sou muito de celebrar o passado, e acho meio estranho as pessoas querendo celebrar o passado através da internet ou qualquer outra coisa que não existia nele. Mas entendo a nostalgia, até certo ponto. Às vezes é difícil se acostumar com as coisas, mesmo quando as mudanças são positivas. Às vezes você tem ligação emocional com algo no passado, ou o passado era melhor porque menos merdas tinham acontecido. Isso é compreensível.

O que não consigo entender é por que algumas pessoas se incomodam com mudanças que não afetam em nada a vida delas. Por que algumas pessoas insistem em se acorrentar a certos pontos do passado, e lutarem contra essas mudanças. Por capricho e egoísmo. Tentando usar como desculpa conseqüências terríveis que só existem na cabeça delas. Ignorando pessoas e comportamentos que sempre existiram, mas são oprimidos há alguns séculos.

É deprimente ler um homem encorajando que "continuem a lutar" para que pessoas LGBT+ não possam se casar. Um direito que deveria ser inerente, mas teve que ser conquistado, e mesmo depois disso continua sofrendo ameaças. É revoltante saber que esse homem, junto com muitos outros homens e muitas outras mulheres, em muitos outros países, conseguem vetar leis baseadas no que eles acreditam ou não, no que gostam ou não, mesmo quando essas leis não afetarão em nada a vida deles, mas melhorarão a vida de outras pessoas.

Essas pessoas tentam se agarrar ao passado. Falam sobre a ameaça à família tradicional, aos costumes. Essas pessoas não se contentam em ter liberdade para viver de acordo com o que acreditam: elas querem tirar a liberdade para que outras pessoas, com crenças diferentes e idéias diferentes e amores diferentes, também vivam.

Porque querem. Não há lógica ou ganho por trás disso. Como a criança mimada que fica batendo o pé e chorando porque quer um brinquedo. E, veja bem, eu não tenho problemas com crianças mimadas ou chorando, desde que elas estejam longe de mim. E também não tenho muitos problemas com as pessoas desgostarem de algo, mesmo que esse desgostar não faça sentido, nem com pessoas nostálgicas.

O meu problema começa quando as pessoas querem fazer o desgostar delas ser proibido por lei. Quando resolvem matar ou violentar ou ameaçar outra pessoa, simplesmente por discordar das escolhas que essa pessoa faz.

Eu quase chorei lendo aquela reportagem. Senti tanto nojo, que quase não consegui ficar feliz pela lei ter sido aprovada. É de quebrar o coração ler um senador, um homem gay, dizendo que "nada vai tirar esse momento histórico de nós". Espero que ele esteja certo.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Estômago

Tô sentindo um gosto horrível na boca, um negócio pesado do estômago. Fica difícil de respirar, tenho que puxar o ar uma, duas, três vezes pra ele finalmente entrar direito no pulmão. Se fosse de desmaiar, acho que já tinha caído. Tudo apagado. Hmmm, não me parece uma idéia tão ruim. Tudo apagar. Costumava pensar, na época da depressão, que seria tão bom se tivesse um jeito da gente dormir, dormir por muitos e muitos e muitos anos, só acordar em outra era, outros tempos, e dormir de novo se as coisas continuassem ruins. Não era vontade de morrer. Era só vontade de sumir. De apagar tudo, voltar quando bem entendesse. Quando o ódio parasse de emanar com tanta força. Quando as palavras bonitas fossem todas pro lixo, e virassem só empatia. Sinto falta da empatia. Respirar parece ser mais difícil quando você sente empatia, porque as coisas passam a defesa, passam a armadura, passam a pele e a carne e atingem com força o osso, não adianta gritar de dor, gritar não faz a dor ir embora, é assim mesmo quando pega no osso, e aí invade o sangue. Você sabe que quando chega no sangue, é um caminho sem volta. O sangue anda pelo corpo todo. O sangue anda pelo negócio pesado no estômago, faz dar ânsia de vômito, mas tudo continua preso.

Não há compreensão sem empatia. Do que adianta explicar, ilustrar, gritar, se as pessoas nem tentam ouvir? A falta de ar vai te consumindo. Acho que o ar não passa pelo corpo todo, mas todo mundo sabe o que acontece se ele não chegar no pulmão. O ar faz a gente gritar. A gente grita, com esperança que vão começar a ouvir, a tentar entender. Não é funciona assim. Queria dormir e só acordar quando funcionasse.



A coisa curiosa é que tô sentindo todo esse mal estar mesmo sem gritar tanto. Quem sabe se eu gritasse mais.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Cansei no meu nome

Simplesmente cansei.

É muito comprido, não sei. Qualquer um me chama pelo apelido, porque é muito comprido. Eu entendo, entendo mesmo, sou mestre em ter preguiça das coisas mais simples. Dá preguiça usar tantas letras para dizer meu nome. Não sei, as pessoas usarem algum apelido me incomoda. Mas como fugir disso, se o nome é tão comprido? Entende? Eu entendo, entendo mesmo. Por isso quero trocar. Posso trocar? Quero escolher um bem curto, quatro letras. Tipo Bete. Ah, não, Bete não dá, vem de Elizabete. Do que adianta trocar nome comprido por nome comprido? Mas eu podia colocar assim mesmo, né? Eu tinha uma professora com nome no diminutivo, acho que pode fazer essas coisas. Não sei como andam os cartórios, o que eles estão registrando. Será que eles entendem, se explicar que cansei? Quero trocar meu nome, por favor, será que é só chegar assim? Disseram que o juiz não deixa fazer isso à toa, só se seu nome for alguma coisa terrível que seus pais colocaram em você por influência do ácido. A mãe drogada no pós-parto, carregando o bebê no colo. O pai drogado, rindo do lado, dizendo Ela pode chamar Lisida. É cada um que tem filho, né. Talvez não deixem porque meu nome é bem normal. Vale a pena tentar, se não for custar nada. Queria um nome bem curto, para não me incomodar com o jeito que me chamam. Jogar fora o nome antigo e começar tudo de novo, sabe? Não é um pedido difícil. Bom, acho que também não é nada muito necessário, meio frescura minha. Mas é que às vezes penso nisso. Trocar meu nome. Começar tudo de novo. Não parece ruim.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Promessa

Sentei na beirada da varanda, balançando meus pés do lado de fora e acendendo um cigarro. Não fumo cigarro forte. Puxei o cigarro e soltei a fumaça, vendo a nuvemzinha cinza se perdendo no céu escuro. Era uma noite abafada, com pouca brisa, como geralmente eram os verões ali. O dia todo fora assim, achei que dali a pouco ia chover. Lá era assim: o tempo não conhecia meio termo, era sempre muito. Muito calor, e depois muita chuva, depois muita lama no meio do calor de novo. Bati a cinzas no quintal do vizinho de baixo.

"Ei", chamei, virando-me para a sala. Ele estava entrentido com a televisão. Estava vendo um programa sobre destruição de prédios. Parecia que as bombas estavam destruindo aquele prédio. "Ei", chamei de novo, mais alto.

"Quê?", perguntou, sem tirar os olhos da tevê.

"Quer um cigarro?"

"Não"

"Mas lembra aquela vez que você prometeu que ia dividir um cigarro comigo?"

"Hmm", ele resmungou. A destruição dos prédios nem era tão interessante assim.

"Vem cá, você prometeu"

"Pensei que a gente ia fazer isso com um pouco mais de glamour"

Eu ri. "O glamour acabou depois que as pessoas descobriram que isso dá câncer. Já percebeu a quantidade de coisas que dá câncer? E sabe que, se ficar velho e não morrer de nada, você morre de câncer", contei, mas sabia que ele não estava ouvindo uma palavra. "Vem cá"

"Hoje não"

Meu pescoço começou a doer e parei de olhá-lo, voltando a encarar o céu escuro. Apaguei a bituca na varanda e joguei no quintal do vizinho. Sorte dele que eu não fumava muito, ou teria um marzinho de bitucas lá embaixo.

"Hmm, acho que a promessa não funciona assim", pensei em voz alta, sem fazer questão que alguém me ouvisse. Deixei pra lá. Quando saí da varanda, o programa dos prédios tinha terminado.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

A falta de equilíbrio

Nem pisco para dizer que 2011 foi um ano bom. Muito, muito bom. Posso fazer uma lista do porquê ele ter sido bom com fatos e sentimentos. Posso dizer que, caralho, tirei minha carta de morotorista e fiz um intercâmbio, duas coisas que queria desde sempre. Que consegui demonstrar um pouco melhor como amo as pessoas, e dizer com todas as letras como elas são importante para mim. Que abri mão de várias coisas que, bom, foram meio difíceis. Mas eu sabia que tinha que fazer, então fiz. Aí fiquei meio triste, aí tentei me culpar, depois tentei racionalizar porque a culpa era minha, e depois ainda percebi que eu estava errada e ninguém tinha culpa de nada. Esse ano aprendi que as coisas acontecem, simplesmente acontecem, e não tem nada de errado com isso.

Quando percebi isso, deixei de me importar com um tanto de coisa. Acho que isso foi o mais importante. Deixar pra lá. Parar de tentar controlar o que não está sob meu controle. Prar de me incomodar com o que não posso mudar. Parar de me incomodar com o que as pessoas fazem - é só desligar a tv, pular o post, excluir do twitter. Não tem nada no universo que me obrigue a conviver com pessoas ou coisas que não gosto, não quero conviver.

(a menos que tenha dinheiro envolvido.)

Em 2011 trabalhei tanto de graça. E descobri que trabalhar das 9h às 17h não mata ninguém e não muda nada do que você é. Claro que tinha dias que eu tinha que me arrastar da cama, me arrastar para pegar o ônibus, me arrastar para cuidar das crianças. Isso também não arrancava pedaço nenhum. Fiquei meio orgulhosa de mim.

Há um tempo que eu percebi que tenho um objetivo de vida que tá sempre lá, não importa o ano: ser menos babaca. Depois que deixei de me importar com tanta coisa, depois que comecei a cuidar mais da minha própria louça, senti que esse objetivo começou a ser cumprido.

Acabei ficando assim. Não me incomoda realmente. Tenho essa vontade de defender o que acredito, de dizer "aí galera sou x y z não curtiu paga lá meu aluguel". Precisou de uma tentativa e erro para deixar pra lá. Não sou boa com equilíbrio. Ou falo demais, ou fico quieto. Ou compartilho com a internet cada coisa que tô pensando, ou ignoro até os comentários mais escrotos porque não vai valer meu tempo.

Meio chato isso.

Quero um pouco do equilíbrio e um pouco da voz que tirei de mim mesma. Pelo menos essa é minha vontade pra agora, talvez depois eu canse de novo. É, provavelmente vou cansar. Também canso muito fácil da maioria das coisas.

Gosto tanto de ano novo. Gosto do dia 31, quando pego minha lista de filmes e conto quantos vi no ano. Os seriados. Lembro das músicas e dos momentos que elas representaram. Pra mim é mais do que só uma folhinha do calendário virando, por mais que eu esteja jogando a mesma coisa, sentada no computador mais do que eu deveria, tudo igual.

Porque começo a contar de novo, porque em março volto para um ano diferente da faculdade. Acho que ano novo é diferente quando você estuda. Talvez eu pare de ligar quando me formar. Não sei.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

ai gente

ultimamente (er, desde o começo do ano?), toda vez que sento pra escrever sobre a vida, alguma coisa que me incomoda, alguma coisa na minha vida que me incomoda, alguma babaquice que li na internet, tudo que acabo pensando é--

"... gente"

"ai mano sério"

"véi"

-- e assim vai.

às vezes eu até começo a escrever. escrevo algumas coisas, sempre medindo muito bem que palavras eu tô usando, mesmo que ninguém vá ler. (outro aprendizado de 2011: pensar muito bem antes de falar e agir) não ligo de sempre tomar cuidado na hora de escrever. acho que precaução não custa nada, não vai me prejudicar em nada, e as pessoas podem se ofender facilmente.

enquanto tô lá prestando atenção para não ser grossa ou ofensiva ou colocar palavra na boca das pessoas ou overreact ou interpretar a mais, bate sempre o pensamento de "isso é tão inútil. estar escrevendo isso é tão completamente inútil, porque ninguém se importa".

não tenho nada contra as pessoas não se importarem. eu mesma estou cagando pra uma infinidade de coisas. ninguém se importa e isso não é ruim, ou errado, ou me deixa triste. é só uma constatação que não preciso perder meu tempo, ou o tempo da outra pessoa, que pode vir a ler o que eu escrevi por falta de uma louça pra lavar.

nada contra não ter louça pra lavar.

aí eu apago tudo.

a fase de "não quero me omitir" foi uma das mais rápidas que já tive. pra 97% das situações, o melhor e o mais fácil é apagar o post e deixar pra lá. com o tempo, não vem nem mais a vontade de escrever qualquer coisa, vou deixando pra lá. essa é uma apatia muito maior do que eu sentia antes, que senti por uma época -

naquela época, a apatia era fazer pose que eu odiava o mundo, mas chorar sozinha na minha cama. era ficar dias sem dar risada, sem querer falar com ninguém. eu não queria falar, porque não queria pedir ajuda. eu queria que alguém comodamente chegasse até mim e perguntasse "e aí, tá rolando alguma coisa? cê tá triste?", e eu falaria tudo. ninguém veio, né. (outro aprendizado importante: há menos que você seja uma das raras exceções que nasceu com o cu pra lua, terá que correr atrás de tudo que você quer.)

às vezes tenho vontade de responder a alguma coisa. é raro. é tão mais fácil só postar num twitter um "sério, mano?". ninguém vai entender, ninguém vai ligar, e eu vou gastar dois segundos do meu tempo. é o suficiente. hoje em dia não choro mais na cama, não fico esperando que alguém corra atrás de mim oferecendo qualquer tipo de ajuda.

eu estava pensando, "2011 foi um ano bom". foi mesmo. não há coisa ruim que supere todas as coisas boas. mas 2011 foi um ano também que mais uma vez chegaram de voadora na redoma de vidro que eu morava e tive que aprender umas coisas nos trancos. pra mim funciona, aprende com as merdas. sou meio lerda pra aprender as coisas e tratamente de choque é o caminho mais rápido.

mas isso me deixou meio apática.

não com o mundo, não com as pessoas - a menos que elas façam comentários imbecis sobre assuntos que não entendem absolutamente nada, isso tende a me deixar irritada -, mas comigo mesmo.

esse blog mesmo já deletei e voltei umas três vezes no ano. agora mesmo tô pensando em apagar o post e deixar pra lá. mas acho que de vez em quando vale postar alguma coisa além de palavras aleatórias que conotam resignação.

domingo, 23 de outubro de 2011

Como foram as coisas

É domingo e levantei às oito da manhã (diferenciação importante, seria mais comum ter acordado à noite). Achei estranho, porque apesar do cochilo estranho que tirei à tarde fui dormir às duas. Ontem foi sábado e levantei cedo também, oito e meia, mas compreensível, sexta fui dormir antes da meia-noite porque estava muito cansada.

Estava muito cansada na sexta porque não dormi direito, fiquei conversando e vendo seriado porque estava sem sono, acabei deitando no sofá das sete ao meio-dia e perdendo uma reunião que tinha pela manhã, porque tinha outros compromissos à tarde e aula à noite, e esses não podia perder de jeito nenhum. Detesto quando isso acontece, de eu ser irresponsável de não dormir e depois não dar conta de compromisso.

Mas, na verdade, eu estava sem sono porque na quinta dormi a tarde toda, até nove da noite pra falar a verdade, quando criei vergonha na cara e me arrastei pra aula mesmo sabendo que o professor só passa lista e alguém poderia assinar pra mim. Por mais que odeie a faculdade, não gosto de perder aula. Na quinta eu estava meio doente, com a cabeça pesada e o corpo mole, e também tinha acordado cedo porque tinha entrevista pra fazer às dez.

Tudo bem, porque quarta fui dormir bem cedo, logo que cheguei da faculdade. Quarta foi difícil mesmo, minha rinite estava atacada e eu me sentia um zumbi, mas não deu pra faltar de nenhum compromisso e eu ainda tinha seminário pra apresentar à noite. Dormi toda meia-horinha que tinha livre. Detesto quando a rinite, que nem sei mesmo se é rinite porque tem sintomas que batem e outros que não, ataca.

Acho que a rinite atacar tem relação com eu ter dormido pouquíssimo na segunda e ter passado seis horas enjoada dentro do ônibus. Era pra eu ter voltado no domingo, mas acabei acordando tarde e ficando com preguiça de correr para pegar o ônibus às duas da tarde, último horário que faria eu chegar em Ribeirão a tempo de pegar o outro ônibus, pra Franca. Foi bom porque sai para almoçar com a minha mãe e o restaurante era ótimo.

Mas aí voltei na segunda, oito da manhã, e sempre passo a noite virada quando volto nesse horário. Durmo no ônibus. Dessa vez não deu muito certo, fiquei enjoada a viagem toda e, no tempo que consegui dormir, dormi mal. Cheguei em Franca cansada, mas não deitei. Fui ver seriado, porque sabia que a semana seria cheia e eu não teria tempo outro dia. Depois disso fiquei doente, já na terça não tive tempo de fazer nada e já faltei de reunião, e aí foi zumbizando a semana toda.

Minha única escolha acertada essa semana foi não ter saído e gastado mais dinheiro que tenho (apesar de ter gastado esse dinheiro com comida depois) no sábado. Estava friozinho e maravilhoso embaixo da minha coberta.